Como você mesmo dizia, eu entrei pelos seus olhos e me alojei naquele clarão. As nossas promessas de amor serviram como corda para nos apertar sempre um ao outro, mas hoje entendo que me sufoquei sem nem me importar com isso enquanto só havia você aqui. Lembra daquela carta escondida no meu vestido, toda perfumada com cheiro de você? Foi uma supresa inesquecível, amável e digna de lembranças. A gente brincava de "adultecer" com a nossa independência emancipada e com o ardor de filmes de romances históricos. Não faltava amor e eu sabia disso. Era tudo muito claro, assim como a tua alma dourada que brilhava quando me via chegar dos meus compromissos. Você me dava rosas geométricas que enfeitavam o meu quarto com as suas cores vivas. A sua letra suave e bem escrita sempre inundava os meus olhos quando de surpresa eu as encontrava grafadas em algum canto da minha bolsa. Não tiramos muitas fotos, você ficava envergonhado e sempre dizia que os nossos olhos é que revelavam as imagens mais bonitas que haveriam de existir. Tudo me proporcionava alegria quando ouvia a sua voz grossa e discursiva, que fazia contraste pleno com a minha fina e com singelo sotaque. O teu jeito de sorrir de boca bem aberta, a maneira que me convidava para dançar e a cordialidade que havia no modo como carinhosamente me chamava, eram motivos que me faziam ter cada vez mais a certeza de que era você o meu sonho materializado. Porém, a falta de vivência nos afetou, e sinceramente, nós sabíamos que isso um dia iria acontecer. Depois de algum tempo as tuas frases se tornaram menos freqüentes e determinadas, como se não houvesse mais a real necessidade de me conquistar a cada dia e eu passei a me ampliar para ir ocupando cada vão que você deixava. Os grãos de areia da ampulheta caiam vertiginosamente como pássaros feridos que aprenderam a voar, mas que não podiam mais evitar a queda. As lacunas ficaram tão maiores que o controle se perdeu. E como o esperado, eu caí primeiro. A queda foi brusca, seca e frontal; dolorosa e eterna.
Para as rosas, escreveu alguém, o jardineiro é eterno.
2 comentários:
Não importa quem caiu, o importante é que pode-se levantar aos pouquinhos, juntando todas as forças, para enfim, dar mais um passinho e depois outros pela frente.
Essa eternidade não existe quando antes se vê de longe.
Nossa eternidade é hoje.
Vem?
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