27 de setembro de 2007

Só em lá

Um dia ela me disse:
- Imagino que a solidão seja algo inevitável e infindo. Ela não brota do que é nada e simplesmente é. Não é sintoma de quem perdeu os pais ou está casado; de quem tem amigos ou namorado; de quem tem emprego ou quem é desempregado; de quem tem boas relações públicas ou de quem é tímido; de quem gosta de festas ou de quem é caseiro. O "estar só" é cruel e difícil de constatar e remediar. Os pensamentos que circundam são só teus. Se não disseres o que sentes de verdade através de gestos ou palavras, os outros jamais saberão o que acontece, e aí está a solidão. Quando tu te deitas em tua cama e vira para o teu céu, sentes que estás só. Só em sol, só em si, só em ré, só em dó. Sentes vontade de completar alguém, mas sabes que há cortes abertos em teu corpo. Por que não te curas antes de jogar teu pó mágico e curandeiro sobre outros corpos? Certamente há quem precise de ti, mas não deves atirar tua singela e esperançosa vida sobre outras vidas, possivelmente cortadas como a tua, para que te completem e curem. Quanto mais vazia for a tua existência, mais pesada será. Aprenda a amar-te incondicionalmente e a curar-te. Não tenhas dó de ti. Estou certa de que serás tudo o que um dia desejaste. És uma grande mulher e forte em tuas lágrimas doces.

25 de setembro de 2007

E volte aqui

Se o pensamento avisa que será, logo vem aquela onda que esfria e ao pé do ouvido conta baixinho que não seria mesmo o que se simulou. Talvez em outro compasso ou em outra vida. Cada corpo em seu lugar, vai ver sempre foi são demais.
Pés no chão.

24 de setembro de 2007

Ah, manhã!

Seis e trinta da manhã. Ela acorda, enrola mais dez minutinhos e programa seu aparelho celular para despertá-la em uma falsa idéia de que esse tempinho a mais na cama realmente fará a diferença. Psicologicamente ou fisiologicamente esse mecanismo sempre funciona, tornando este o fato de maior relevância no despertar matinal. Já com um ânimo pulsante sobrenatural, ela coloca um cd azul para tocar enquanto ensaia algumas caras e movimentos na frente do espelho com o intuito de fazer da manhã algo menos mórbido e contagiar posteriormente as pessoas ao seu redor com tamanha leveza. Se veste de café e toma uma camisa branca de gola às seis e quarenta e cinco. Joga os cabelos para os lados com seus dedos de plástico lilás e logo pergunta para si se está ou não para presilhas e brincos. Se a resposta consistir em um olhar de desprezo, ela se contenta com o palitinho de madeira perdido em seus cabelos e só. Mas se ela inclina um pouquinho a cabeça para cogitar a possibilidade de um "sim", ela logo se enfeita, pois o relógio já marcou seis e cinqüenta e três. Os dentes são minuciosamente escovados e analisados, mania adquirida devido a antiga gema que guardava em sua fala. Calça calça, tênis meia, veste juízo e se pinta de cinema. Logo sai sem casaco, não gosta de carregar coisas nas mãos nem peso nas costas. Pede um ônibus pelo telefone e logo se depara com a multidão observadora, uma vez bem analisada por uma grande alma. Sente-se um pouco tímida enquanto está como a atriz daquele curta-metragem e acelera para sentar-se nos bancos mais altos. Eles geralmente estão ocupados e com certo ar de frustração ela caça sem sucesso um banco duplo vazio, pois odeia ficar do lado da janela e ter que fazer malabarismos para pedir licença e sair sem danos do local para descer do carro social. Nem todas as pessoas são adoráveis e poucos são os homens que se lembram que uma mulher deve ser venerada, inclusive nos mínimos detalhes, mesmo não sendo a(s) dele(s). Bancos cheios e bolsos vazios, restam apenas papéis de balas de menta no chão prateado de relevo. Tudo certo, uma moça jeans de cabelos longos e enrolados se oferece para segurar a mochila e o fichário. O grande caderno ela aceita, mas a mochila... aah, a mochila é coisa séria, deve se encaixar em seu corpo e pesar com as mãos sobre o zíper. A moça bate à porta e, sem perguntar quem é, as portas para o mundo se abrem novamente. Ela pula do abismo sem receio e move seu pouco mais de um metro e sessenta e cinco em direção a um universo de aparente estudo e realmente hierárquico. É o início de mais uma manhã recheada de corpos preguiçosos. Alguns sempre mortos, já abandonados pelos outros corpos. Outros mais íntimos, já acostumados e com suas moedinhas nas mãos aguardam a chegada da moça-dos-sorrisos fresquinhos. Ela é moça forte, que toma atitudes como coca-cola light.

22 de setembro de 2007

Resultado é meramente o fim.

Brincares, forma doce de levar uma vida de valores amansados pelo bom humor infantil de uma mulher quase menina. Detalhe sutil e relevante para quem aprecia o que não está nas revistas calorosas de novidades. Ego fraco, espírito forte. Sem propagandas televisivas. Apresentação sem delongas, apenas uma breve introdução de uma mente feita de coração e naturalidade. Livro doce e, quero eu, atualizado de acordo com o que se sente, de fato. Exposição do processo, sem grandes preocupações com a temida conclusão. Sou o deleite do desenrolar. Resultado é meramente o fim. Prazer e alívio imediato, já.