24 de setembro de 2007
Ah, manhã!
Seis e trinta da manhã. Ela acorda, enrola mais dez minutinhos e programa seu aparelho celular para despertá-la em uma falsa idéia de que esse tempinho a mais na cama realmente fará a diferença. Psicologicamente ou fisiologicamente esse mecanismo sempre funciona, tornando este o fato de maior relevância no despertar matinal. Já com um ânimo pulsante sobrenatural, ela coloca um cd azul para tocar enquanto ensaia algumas caras e movimentos na frente do espelho com o intuito de fazer da manhã algo menos mórbido e contagiar posteriormente as pessoas ao seu redor com tamanha leveza. Se veste de café e toma uma camisa branca de gola às seis e quarenta e cinco. Joga os cabelos para os lados com seus dedos de plástico lilás e logo pergunta para si se está ou não para presilhas e brincos. Se a resposta consistir em um olhar de desprezo, ela se contenta com o palitinho de madeira perdido em seus cabelos e só. Mas se ela inclina um pouquinho a cabeça para cogitar a possibilidade de um "sim", ela logo se enfeita, pois o relógio já marcou seis e cinqüenta e três. Os dentes são minuciosamente escovados e analisados, mania adquirida devido a antiga gema que guardava em sua fala. Calça calça, tênis meia, veste juízo e se pinta de cinema. Logo sai sem casaco, não gosta de carregar coisas nas mãos nem peso nas costas. Pede um ônibus pelo telefone e logo se depara com a multidão observadora, uma vez bem analisada por uma grande alma. Sente-se um pouco tímida enquanto está como a atriz daquele curta-metragem e acelera para sentar-se nos bancos mais altos. Eles geralmente estão ocupados e com certo ar de frustração ela caça sem sucesso um banco duplo vazio, pois odeia ficar do lado da janela e ter que fazer malabarismos para pedir licença e sair sem danos do local para descer do carro social. Nem todas as pessoas são adoráveis e poucos são os homens que se lembram que uma mulher deve ser venerada, inclusive nos mínimos detalhes, mesmo não sendo a(s) dele(s). Bancos cheios e bolsos vazios, restam apenas papéis de balas de menta no chão prateado de relevo. Tudo certo, uma moça jeans de cabelos longos e enrolados se oferece para segurar a mochila e o fichário. O grande caderno ela aceita, mas a mochila... aah, a mochila é coisa séria, deve se encaixar em seu corpo e pesar com as mãos sobre o zíper. A moça bate à porta e, sem perguntar quem é, as portas para o mundo se abrem novamente. Ela pula do abismo sem receio e move seu pouco mais de um metro e sessenta e cinco em direção a um universo de aparente estudo e realmente hierárquico. É o início de mais uma manhã recheada de corpos preguiçosos. Alguns sempre mortos, já abandonados pelos outros corpos. Outros mais íntimos, já acostumados e com suas moedinhas nas mãos aguardam a chegada da moça-dos-sorrisos fresquinhos. Ela é moça forte, que toma atitudes como coca-cola light.
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Um comentário:
Eu "como coca-cola light".
Dúbias interpretações.
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